Distúrbios alimentares, medo de dirigir e depressão. Estas são apenas algumas situações que podem ter a mesma origem: o perfeccionismo. Característica frequentemente apresentada como ponto positivo por alguns e como defeito por outros candidatos durante as entrevistas de emprego, este traço de personalidade pode gerar metas inatingíveis e comprometer a saúde de crianças, jovens e adultos. “Existem pessoas que buscam a perfeição sem comprometer sua autoestima, porém, o que gera implicações negativas no dia a dia de muitos homens e mulheres é um sentimento de que serão aceitos somente se forem perfeitos. Eles consideram seus erros como defeitos pessoais relacionados a aparência ou comportamento, o que gera muita ansiedade e um círculo vicioso que parece não ter fim”, explica a psicóloga Salete Martins, da Psicotran.

Para aqueles que sofrem com a fobia do trânsito, por exemplo, a autoavaliação e a percepção dos outros motoristas é tão severa que é comum encontrar pessoas que, apesar de ter habilitação, ficam mais de dez anos sem conseguir chegar perto do carro para dirigir. Este era o caso da empresária Maria Elisa Grein, que ficou 13 anos sem assumir o papel de motorista. “Eu e minha irmã fizemos autoescola juntas e não tive nenhum problema para conquistar minha carteira de habilitação. Mas depois, eu simplesmente não conseguia dirigir, sentia náuseas, a perna tremendo e comecei a evitar a direção”, lembra a empresária. Com o passar dos anos, porém, ela sentiu a pressão aumentar já que dirigir se transformou em uma necessidade. Em maio, ela começou o acompanhamento com a terapeuta, que foi finalizado em julho. “As pessoas achavam que era falta de vontade, que eu não queria dirigir. Muitos ainda não entendem que sem acompanhamento, eu realmente não conseguiria superar esta dificuldade”, comenta Maria.

Para a psicóloga, geralmente existe uma situação determinante que leva a pessoa a buscar ajuda para superar determinada dificuldade. “A maioria dos homens e mulheres já está adaptada as autocríticas constantes, a procrastinação de atividades ou mesmo a evitar algumas situações. Existem aquelas que procuram ajuda depois de encontrar informações mostrando que determinado comportamento pode ser alterado e outras que decidem mudar quando estão diante de alguma necessidade familiar, por exemplo, que não tem como evitar”, analisa Salete.

Para Maria Elisa,  o nascimento do filho foi a motivação para superar o medo de dirigir. “Quando eu estava grávida, tinha que esperar meu marido para me levar para todos os lugares. Mas com uma criança em casa tudo muda. No início eu ainda dependia do meu marido ao sogro até para coisas básicas como a ida ao pediatra. Agora eu mesma faço tudo”, conta a empresária.

O primeiro passo

Para quem ainda não sabe se o perfeccionismo está afetando sua rotina, a especialista Salete Martins recomenda uma prática que pode ajudar. “ Liste tudo aquilo que você faz, ou deixa de fazer, por causa do seu jeito perfeccionista. Em seguida, identifique por que cada tarefa tem que ser perfeita e tome uma atitude que desafie esse comportamento. Se tem o hábito de revisar um trabalho três vezes antes de entregar, por exemplo, tente reduzir para duas. Se evita assumir o papel de motorista, pare de evitar a situação e procure um terapeuta para uma avaliação. Comece aos poucos e concentre-se em um comportamento de cada vez, sempre atento para definir metas realistas”, orienta a psicóloga.